Idinando Borges
julho 20, 2018

Ines Piacesi – uma intrépida jornalista por Ângela Laguardia – do Folha de Barbacena

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O cronista não vê o que os outros não veem, mas o que os outros, mesmo vendo, desprezam. José Castello

Na continuidade e compromisso com as mulheres de MULHERES DE PALAVRA de nossa cidade, fazemos uma breve apresentação, em nosso quarto artigo, sobre a cronista Ines Piacesi, biografada por Everton Fernando Pimenta, em significativo resgate de sua memória.

Ines Piergentile (foto)  (1895-1981) nasceu em Fabro, uma pequena cidade da região da Umbria, na Itália, e sua história em Barbacena começa a partir da chegada de seus pais Orlando Piergentile e Maria Zucchetti Piergentile, à cidade, em fins do século XIX, onde já existia uma colônia de imigrantes italianos.

Orlando Piergentile não foi um homem comum, era um notável empreendedor, dono de uma genialidade e uma personalidade marcante. Foram muitas as inovações que eletrouxe para Barbacena, merecedoras de um artigo à parte.

Segundo Nestor Massena, deve-se a ele “…com o seu dinamismo entranhado e entranhante, a sua febril e sublime operosidade…”, a existência doprimeiro cinema de Barbacena, “Cinema Moderno, de que era o empresário, o gerente, o diretor, o propagandista, o caixa, o vendedor de entradas, o animador,de modo a assegurar-lhe a vida, êxito, prosperidade”.Com seu espírito progressista,“deu a conhecer a Barbacena o primeiro automóvel, que aí trafegou, quando só existiam aí os carros de tração animal, puxados por magros pangarés”.Além de introduzir os primeiros aparelhos mecânicos de fabricação do pão na cidade, até então, um “rotineiro processo de manipulação da massa, primitivo e anti-higiênico”.

Mas não foram só estes feitos… É dele a iniciativa da construção de um sistema de abastecimento de água e de canalização fluvial, de um chafariz público e doaplainamento do morro de Santa Tereza, para a construção da primeira praça de esportes da cidade. O nome do local homenageia sua segunda esposa, a barbacenense Tereza Araújo, com quem se casa e constitui família, após o falecimento de Maria Zucchetti Piergentile.

Orlando Piergentile viveu em Barbacena até 1920, ano que marca sua volta à Itália, levando consigo sua família, e nunca mais retornou ao Brasil, vindo a falecer em 1941.

Aqui ficaram sua primeira filha, Ines Piergentile e o primo Aroldo Piacesi, que o acompanhou desde o início de sua jornada no Brasil.

Antes de se casar aos 17 anos, e após ficar órfã de mãe, Ines Piergentile passou sua infância e adolescência no internato do Colégio Imaculada Conceição, sob os cuidados de Irmã Paula Bouisseau, que exerce papel preponderante em sua formação e no seu papel defutura educadora. Em 1912, sob a pressão das circunstâncias, Ines se casa com Aroldo Piacesi (1881) e viajam em lua de mel para a Europa. Em Roma, por recomendação de Irmã Paula Bouisseau, eles recebem a bênção matrimonial do Papa Pio X.O casal teve treze filhos, no período entre 1913 a 1935, porém, o desvelo com educação da família não impediu que Ines Piacesi se dedicasse à escrita. E, por volta de 1920, aparecem suas primeiras contribuições no jornal O Sericicultor.

Em 1923, ela se torna a jornalista do Apollo Jornal, a partir da inauguração do Cine Teatro Apollo, de propriedade de seu marido. Além da programação do cinema, as quinze edições publicadas traziam artigos, anúncios e crônicas que davam notícias sobre a sociedade da época.

Após este período, ela colabora no jornal Cidade de Barbacena e em 1927, mantém uma coluna no Jornal de Barbacena, dedicada à pedagogia, intitulada “Em torno da criança”, sob o pseudônimo de Dona Paula. Após 1930, continua escrever para jornais locais eem diversos jornais do estado, entre eles, o Jornal do Comércio e A Tribuna, de São João Del Rei; Diário Mercantil e o Lince, de Juiz de Fora; Correio Carmelitano, de Monte Carmelo); O Triângulo, de Araguari e Correio de Minas, Diário da Tarde e Estado de Minas, de Belo Horizonte. Além de enviar artigos para os jornais O Povo e Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro.

Ines Piacesi foi, sem dúvida, uma grande mulher, educadora e jornalista inigualável. Vale lembrar o contexto em que se inseria – a primeira metade do século XX, quando as mulheres começavam a lutar pela sua emancipação e pela conquista de direitos civis. De seu percurso jornalístico, destacamos o jornal Rubicon, de que foi proprietária e circulou de 1935 até 1950. Mesclando contos, crônicas, poesias, notícias da cidade e outros gêneros textuais, o Rubicon era sempre acompanhado de um subtítulo explicativo, que variou no decorrer de suas publicações, como: “NÃO É JORNAL POLÍTICO, NEM TEM PARTIDO, MAS GAROTO IRREQUIETO SEMPRE INTROMETIDO E… IMPERTINENTE, DIZ O QUE SENTE.RECREATIVO, LITERÁRIO – NOTICIOSO – IDEALISTA E TEIMOSO”.

O título, Rubicon, foi tema de um de seus artigos, que assim o define: um pequeno rio ao norte do território latino, que servia de divisa e foi atravessado pelo imperador romano Júlio César, ao vir das Gálias, em ato de coragem e ousadia para entrar em Roma e combater os inimigos.

Rubicon atravessou o tempo… E ainda temos muito para contar sobre ele e sobre sua autora, mas vamos deixar para um próximo artigo.