Idinando Borges
abril 8, 2018

Lúcido, calmo o olhar de jovem sobre o momento. Por Hilreli Alves

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06 de abril de 2018, o dia em que pela primeira vez na história, ou ainda, o dia em que nunca antes na história desse país, um ex-presidente foi preso(se for mesmo..). [Correção, o sexto. Link nos comentários] Um dia marcante e memorável. Eu acho muitas coisas curiosas, aflitivas e instigantes a respeito de tudo o que ocorre… Primeiro, como mesmo em meio a tudo ele ainda é o ‘candidato’ com a maior intenção de votos da população brasileira. Quem são as pessoas que ainda depositam sua confiança nele e porque o fazem? O que comem e onde vivem?

Dizer que é falta de informação com o assunto dominando todas as rodas de conversa e postagens na internet, chega a ser ingênuo. Mesmo com tudo podendo estar pautado pela distorção da fonte ou da própria pessoa. Afinal, hoje em dia ‘todos’ realmente contam o conto e aumentam vários pontos. Todo esse cenário não causa um estranhamento? No mínimo, interessante… De onde vem isso? Comé que pode?

Lula representa a política que não se renovou, a política que se sustentou através dos velhos trâmites e acordos, a política engendrada no jogo do sistema,… Contudo, Lula representa tb a política que incluiu, a política que trouxe dignidade a muitas famílias, a política que acabou com a fome no país. Uma atuação controversa e complexa pra se reduzir a uma conclusão restrita disso ou daquilo outro. É mais embaixo sim, gentes.

Nesses anos, por várias vezes li e ouvi a expressão “bolsa vagabundo” — por exemplo — e sobre isso, em especial, gostaria de relatar algo… Minha origem é humilde e cresci num bairro periférico da minha cidade, o São Pedro. Hoje é quase um centro fora do eixo, mas, qndo a gente chegou, lá em volta era tudo mato e algumas ruas pra baixo nem calçamento e esgoto tinha. Meu pai é pedreiro e minha mãe costureira e a vida inteira trabalharam e trabalham muito.

Lembro de quantas vezes vi meu pai virando massa debaixo, literalmente, de sol e chuva. Lembro do primeiro dinheiro que recebi na vida por um trabalho, 50 reais, ajudando meu pai a rejuntar piso numa casa na Boa morte. Lembro de quantas vezes minha mãe virou dias e noites costurando uniformes. Lembro também da primeira vez que fui receber o bolsa família pra gente na Caixa. Era 150 reais. Pouco? Talvez o mínimo suficiente para, pela primeira vez, eu abrir a geladeira e ver uvas e iogurtes. Como assim uva? Danoninho? Cê é louco? Todos da serie: “mês que nunca a gente compra”.

Fruta lá em casa era banana e maçã! Abacaxi e melancia só apareciam quando passava o caminhão fazendo promoção “compre 3 leve o balde”! ..kkkk cada k é uma lágrima(bem humorada..rs) Com o passar do tempo aquilo foi se ampliando, outras oportunidades foram surgindo no contexto do país e mais pequenos caminhos foram se tornando possíveis. Eram políticas públicas de inclusão social. Era a oferta de um peixe de quem não ensinava a pescar, alguns diziam. Falhas. Muitas! Não era perfeito, mas, era um início.
Parecia pouco, mas, era o tangível, era um esboço de equilíbrio. Era dignidade! Era uma transformação. Era um caminho à ascensão. Era um lugar mais adiante no horizonte. E eu não quero com esse relato tornar a poesia do meu olhar sobre a minha vivência um discurso de “rouba, mas faz”. Quero é tocar uma percepção diferente. Despertar o “e se fosse comigo? E se essa fosse a minha história?” Geralmente quem não entende ou resume a ‘foi mérito seu’, ou não sabe da missa a metade e tenta nivelar vidas diversas em pé de igualdade, como se fosse. Desculpa, não é. Claro que todos suam pra continuar a fazer girar todo o planeta. Mas, não façamos de conta que exceção é regra.

Dilma não sofreu a queda por pedaladas fiscais. Lula não está sendo condenado pelo triplex. Essa é a minha, atual, convicção. Essas análises técnicas, pinceladas de soberba, não contemplam a diversidade política que envolve a atuação e movimentação das peças de verdade. Água que corre entre as pedras… caça jeito! Quando o jogo convém e interessa ou por quem pode pagar por ele. O movimento que estamos acompanhando é reação às micro-revolucionárias-mudanças que eles provocaram nas estruturas. O “Que Horas Ela Volta?” da Anna Muylaert retrata muito bem esse nosso recente contemporâneo. Já viu? Assista!

É esse o incomodo que está sendo combatido. É sobre isso. É por isso que a casa caiu. E é pelo mesmo motivo que mesmo ainda com tudo há votos de confiança num cenário de descrença. É quem, um dia, alimentou de esperança muitos! É uma espécie de crédito furado ne? Concordo plenamente. Mas, entende o simbolismo firmado e construído do “abrir de geladeiras” país afora? Imagina pra quem onde ela estava vazia… Imagina pra quem nem tinha uma… Imagina não ter perspectiva porque o cenário não abriu seus olhos… Acontece. É real. Talvez mais perto do que você imagina.

Porém, a gente merece muito mais do que isso! Desculpa Lula, isso tudo é pouco, perto de todo o esquema de corrupção que continuou ativo. Repito, continuou. Merecemos mais! Não basta reconstruir um país sob jeito tão torto. É preciso mais! MAS, com o rumo que estamos tomando como um todo, parece que a direção é regredir para retomar o ponto e “começar de novo”. Só que voltar lá antes da democracia… Não, mores. Ta errado? Ta! Tem que ser revisto e reformulado? Tem! Mas esse caminho aí já vimos onde ele deu antes. Todo esse esforço fantasiado de combate a corrupção está combatendo é um pensamento. Um dia toda essa história vai ficar muito clara e tudo vai ser contado de um jeito diferente do que vemos por aí, por muitos. Não é um questionamento do resultado, é sobre a forma do meio. Se é pra passar o pente fino, passemos direito. Sem atropelar, direcionar ou negligenciar o contexto e a movimentação. Eu hoje não votaria no Lula. Mas, se for possível e preciso eu voto. E só quem vê sentido no “se for preciso” são os meus, ou os com habilidade empática para compreender a life diversa.

Ps.: Se não concorda não precisa se expressar! Mas se quiser pode… Talvez eu ignore ou converse, se notar afeto