Idinando Borges
março 5, 2018

Mito de que a caserna é mais preparada que os civis para comandar o país continua forte

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General de Exército Antonio Hamilton Martins Mourão, que se despede do Exército ao passar para a reserva – Pedro Ladeira/Folhapress

Por Rodrigo Vizeu, Folha de São Paulo

Uma cerimônia em Brasília na quarta (28) ajudou a juntar pontos do passado e do presente das Forças Armadas.

O general Antonio Hamilton Mourão entrou para a reserva e, em discurso, elogiou o coronel Carlos Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-Codi paulista, um dos principais centros de repressão e tortura da ditadura militar. Em entrevista, incluiu Michel Temer entre os que deveriam ser expurgados da vida pública.

Mais sintomática do ponto de vista histórico foi a declaração sobre a intervenção militar no Rio. Trata-se de algo “meia-sola”, disse Mourão.

O general buscou no século 19 o exemplo das intervenções imperiais nas províncias. Evocou o duque de Caxias, que acumulava nesses casos poder militar e político.

Presente na despedida, o comandante do Exército, general Eduardo Villas-Bôas, saudou a liderança e a disciplina intelectual do amigo. O mesmo Villas-Bôas que citou em 2017 o americano Samuel Huntington, que inspirava os militares na ditadura: “A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares; mas quais serão os limites da obediência?”

A exaltação das intervenções de Caxias, da ditadura e o questionamento da obediência entre generais mostram que continua popular uma espécie de mito fundador dos militares: a ideia de que os formados na caserna são mais éticos e preparados que os civis. E, portanto, mais aptos a guiar os destinos nacionais.

O argumento vingou –ou tentou vingar– na queda da monarquia, no tenentismo, na ascensão, renúncia e suicídio de Getúlio Vargas, nos anos JK, na saída de Jânio Quadros e, claro, na ditadura.

Os interessados em ver o Exército no centro da arena têm em 2018 oportunidade de ganhar espaços. Se a intervenção no Rio der certo, por que não um militar na Saúde, nos Transportes, na Petrobras?

Nem é preciso repetir golpe à moda antiga para que o popular e minoritário contingente militar da sociedade aproveite o empoderamento cedido pelos civis para almejar funções menos operacionais.