Idinando Borges
Fevereiro 24, 2018

OH! PÁTRIA AMADA, POR ONDE ANDARÁS?!!! – Áurea Vasconcelos

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O carnaval se foi. Ficaram de resto, merecidas reflexões diante dos padrões de comportamento que se expuseram  nestes quatro dias de folia. Não vamos nos deter nas preferências de alguns ou mesmo, de muitos, pelo silêncio, pelo repouso ou ainda pelo aconchego familiar frente às transmissões da televisão. O que conta é que entre as  lembranças deixadas, as mais evocativas em todo o país, são as cenas de ruas superlotadas como nunca se viu em outros carnavais. Este fenômeno, sem dúvida, reflete o quanto as pessoas estão ávidas por alegria e tentam se esforçar ao máximo, para alcançá-la. Nada mais oportuno que esquecer a rotina cotidiana e se entregar impulsivamente a esta massa humana que segue se sacudindo, rebolando, levantando os braços , cantando, emprestando ares de ordem a uma utópica organização. Como um hiato no tempo do “eu tenho que…” este incansável e libertador exercício físico permite, a cada um,  ser a si mesmo  e soltar suas próprias amarras.

Já sob uma outra visibilidade, fica notório um altíssimo grau de insatisfação com tudo o que se refere ao poder e seus incontroláveis desmandos.  Solidária aos anseios de alegria, a catarse se instalou  em meio aos refrãos musicais, às danças  e à   possibilidade de usar signos como recursos para extravasar tudo que nos faz mal à alma. Muito claramente, em todas as aglomerações, estava  bem retratada  toda a indignação vivida nos últimos tempos. Em especial, nos desfiles de Escolas de Samba, nas grandes cidades.  Cenas muito fortes e emocionantes representaram o grito preso  à garganta do brasileiro, cioso de ter nascido em berço esplêndido e depois, abandonado ao léu. É preciso acreditar que o povo não se encontra mais disposto a enganações e mentiras.

Não senti o predomínio de zombaria e sim, de muita expressão de dor e vergonha. Foi um registro unânime do quanto nossas instituições se encontram falidas e acéfalas. As fantasias e alegorias assumiram a cátedra para transmitir os recados do quanto estamos angustiados e decepcionados. Esperamos que, pelo menos, em algum momento, os ouvidos não se façam tão moucos…

É preciso acreditar na força do povo e este está sendo muito claro  em suas mensagens a quem de direito!

É preciso acreditar que o povo não se encontra mais disposto a enganações  ou  medidas paliativas!

É preciso acreditar que o povo não se nega a aceitar uma ordem social desde que esta seja honesta, correta e adequada!

É preciso acreditar que o povo, apesar de tudo, tem sido benevolente mas agora, mais do que nunca, está a exigir o respeito que merece!

Não era exatamente sobre isto que desejaria falar. Envergonhada de tudo o que vem acontecendo nesta minha pátria amada e cúmplice da voz do povo, acabei me tornando vítima de um momento de desabafo. Natural, quando se depara com jogos patéticos de autoritarismo.

Mas, ingenuamente, ainda estou acalentando um sonho maior. Um milagre talvez!  Que a alegria vivida nestes dias de festa possa perdurar  por mais tempo e que  a crítica social  aí lançada produza, de verdade, bons frutos.

Enquanto aguardamos, vamos cantando o samba enredo da Beija Flor:

“Oh Pátria amada, por onde andarás?

Seus filhos não aguentam mais…”